De quê iremos nos envergonhar? De quê queremos nos orgulhar?

por EQUIPE CLOE
Publicado em 3 de novembro de 2021.

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Faça um exercício rápido de memória e lembre-se de onde você estava no Réveillon de 31 de dezembro de 2019. Se, alguns minutos antes da virada do ano, algum vidente lhe puxasse de lado e confidenciasse, em segredo, que, a partir de 15 de março, você, seus filhos, seus familiares e todo o mundo ficariam em casa por 18 meses, em isolamento social, como você reagiria? Se dissesse que o trabalho seria remoto, que a escola seria à distância, que passeios, festas e viagens seriam proibidos, em que nível de pânico você entraria? Alto, não?

Passado esse período, vivemos, por um lado, a enorme tristeza pelas milhões de mortes que aconteceram em todos os lugares. E vamos levar por muitos anos algumas sequelas físicas e mentais desse período. Mas, por outro lado, nos acostumamos rapidamente ao tal do “novo normal”.

Assim como aconteceu nas grandes guerras do século passado, a altíssima capacidade de adaptação do ser humano à realidade externa mais uma vez se comprovou, a ponto de, agora, no começo deste ciclo de saída da pandemia, termos incorporado rapidamente muitos padrões que aprendemos durante o ano passado. Por exemplo, muitos trabalhadores estão preferindo trabalhar remotamente a maior parte do tempo. Quem diria?

De uma certa maneira, vamos nos acostumando com as mudanças, e o que nos era chocante inicialmente, se torna, mais cedo ou mais tarde, comum. Isso é muito bom, por um lado, mas muito ruim, por outro.

Com a pandemia, cresceu significativamente o número de moradores de rua nas grandes capitais. Basta caminhar perto das pontes, viadutos e parques para se encontrar muitas famílias sem teto, envoltas em cobertores velhos, ou dentro de pequenas barracas improvisadas. E, junto com elas, muitas crianças.

É uma cena chocante, de cortar o coração de qualquer pessoa de bem. Ainda assim, por algum motivo, nos acostumamos com ela, e passamos por essas crianças como se esse problema não fosse nosso. Até quando essa resignação será admitida na sociedade? Em que momento essa omissão será encarada como inaceitável?

Cada sociedade tem seus rituais, códigos e valores, que influenciam os valores e comportamentos de seus membros. Pense, por exemplo, na escravidão. Não pode haver situação mais degradante do que ser escravo; é algo que, em qualquer caso, deve ser repudiado integralmente. Mas há meros 200 anos, isso era o “normal”. Trata-se de uma opressão abominável, mas que era lícita e amplamente praticada naquela época. Fico pensando, quando vejo crianças de rua, será que todas as pessoas que tinham escravos naquele período eram sádicas? Como podiam aceitar aquela aberração nas suas próprias casas? A sociedade nos faz, tanto quanto fazemos a sociedade.

Nessa mesma linha, te convido a pensar, quais formas de opressão são lícitas hoje, e de que nos envergonharemos, no futuro, por termos as aceitado passivamente? Pessoalmente, acredito que uma delas será a opressão econômica extrema, que admite moral e juridicamente haver crianças pedindo comida nas ruas, batendo nos vidros dos carros e às portas das casas, enquanto vivemos nossas vidas.

A opressão no Brasil é tão séria e profunda, que não nos damos conta de sua dimensão. Fora da África, somos o País com pior distribuição de renda do mundo. Nada menos do que 27 milhões de brasileiros estão abaixo da linha da pobreza. Se formassem um Estado separado, o Estado dos Miseráveis, ele seria o segundo maior em tamanho da população do Brasil, apenas atrás do Estado de São Paulo. Mas estamos anestesiados, nossas mentes já se acostumaram a esse velho normal.

Ao mesmo tempo, está em curso um enorme movimento global de inclusão, em que não mais se admite discriminação, mesmo ao tom de brincadeira, por raça, gênero, cor ou opção sexual. Além disso, a tecnologia tem barateado o acesso a conteúdos, bens e serviços. Podemos sonhar com a inclusão de nossos cinquenta milhões de alunos num futuro próximo, desde que os governos canalizem seus recursos para trazer os alunos às escolas e a enriquecer pedagógica e digitalmente a experiência educacional desses jovens, dos professores e das escolas.

Noutro dia, assisti ao Paulo, um menino de rua, dar um espetáculo de violão numa padaria em que eu tomava café, perto de casa. Tocou perfeitamente diversas músicas famosas. Ele havia aprendido a tocar no Youtube, de graça. Nesse aspecto, a tecnologia pode permitir um salto quântico no combate à opressão. Quanto custa usar o Google, que sabe todos os conteúdos e respostas? Nada. Da mesma forma, quanto custa acessar, no Youtube, uma videoaula sobre qualquer matéria? Nada tampouco.

Mas se não aproveitarmos essa oportunidade e colocarmos esses jovens de volta na escola, e as equiparmos para esse novo mundo digital, nossos jovens serão excluídos no futuro não apenas pelos outros seres humanos, mas pelas máquinas, que farão os trabalhos de baixa complexidade que os jovens poderiam, de outra forma, fazer. Em poucos anos, todos os atendentes do McDonald’s terão sido substituídos por quiosques automáticos de atendimento.

Não há resposta possível para essa situação social que diariamente nos envergonha – ou deveria nos envergonhar – que não passe pela Educação. Assim como fizemos na pandemia, temos a capacidade evolutiva de nos adaptar, de questionar e mudar as nossas crenças e de juntos, promover uma nova realidade. Uma realidade em que, alavancada na Revolução Digital, a Educação tenha se tornado a agenda mais prioritária do País e em que nossos filhos e alunos vivam num País verdadeiramente mais justo para todos.

*Fernando Shayer é cofundador e CEO da Cloe, plataforma de aprendizagem ativa

*Esse texto foi originalmente publicado na Bússola da Exame

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